A IRMANDADE DAS ALMAS DE
CAICÓ
Dom José Adelino Dantas
Num diploma de irmão póstumo da venerável
Irmandade das Almas do Caicó, lê-se isto: “Irmandade das Almas, fundada em
1791”. Não sei de que fonte se bebeu essa informação.
Muito se tem feito, no sentido de descobrir as
nascenças dessa antiga e piedosa confraria caicoense, mas nada se há
encontrado. Ao contrário do que acontece à Irmandade do Rosário, cuja
documentação primitiva não se perdeu de todo, nada mais resta do que teria
constituído, outrora, a certidão de batismo da Irmandade das Almas.
O desaparecimento, nascido de buscas
infrutíferas, não inibiu, entretanto, o ânimo de insistir. Como se sabe, o
documento número um dessas associações antigas eram suas constituições, seu
compromisso.
Em Caicó, ainda existem as da Irmandade do
Rosário, aprovadas em Lisboa, em 1772, mas não existem as das Almas. As que
chegaram até nossos dias, datam de 1836, não sendo as primitivas. Mas, por
serem as únicas que se salvaram, merecem alguns comentários.
Como acima foi dito, datam de 1836. Sofreram
modificações, sessenta e seis anos mais tarde e, neste século, no ano de 1933,
foram atualizadas por determinação do hoje Arcebispo Metropolitano, Dom
Marcolino de Souza Dantas.
O compromisso de 1836 foi aprovado por decreto
da antiga Assembleia Legislativa Provincial, e sancionada pela lei n. 15, de
outubro daquele ano, sendo Presidente da Província o dr. João José Ferreira de
Aguiar[1].
No arquivo da Irmandade, guarda-se ainda um
exemplar desse compromisso, um manuscrito de primorosa grafia, lavrado em Natal
por F. C. Galvão, com data de 1837. O calígrafo, amante do Latim, andou
escrevendo, no final do documento, alguma coisa do idioma de Cícero, não sendo,
porém, seu latinório dos mais felizes.
Essas constituições se dividem em onze
capítulos e, tanto nos termos, quanto na forma, guardam notável semelhança com
as do Rosário.
O capítulo primeiro estatui que podiam ser
irmãos das Almas as pessoas de ambos os sexos de qualquer freguesia. A joia de
entrada dependia da idade de cada um. Até vinte e nove anos, pagavam-se dois
mil réis. Até trinta e nove, quatro mil réis. Até quarenta e nove, oito mil
réis. Daí para cima, obedecia-se a ajuste. A contribuição anual era de
trezentos e vinte réis. O capítulo segundo regulava os assuntos de eleições e
composição da Mesa. As eleições se realizavam na véspera da Festa das Almas.
O capítulo quarto mandava que, além do livro do
Compromisso, houvesse mais sete outros, gratuitamente rubricados por um dos
juízes. Os mais importantes eram os de lançamento das entradas dos irmãos, com
a declaração expressa do nome, dia, mês e ano, e o da receita.
Exigia-se também um livro de óbitos, um outro
de lançamento das certidões de missas celebradas pelos irmãos falecidos.
O capítulo quinto fixava a Festa das Almas para
o dia 3 de novembro, logo após a celebração do Dia de Finados, mas admitia que
se transferisse para outro dia do mesmo mês, conforme as circunstâncias,
conquanto que não caísse em dia de festa de rito simples. A festa devia constar
de ofício fúnebre solene a canto chão. Os sacerdotes, irmãos das Almas,
ausentes da sede, estavam desobrigados de comparecer.
A missa cantada era da competência do pároco, e
os demais padres deviam celebrar pelos irmãos falecidos, recebendo a espórtula
de quatrocentos e oitenta réis pela missa. O pároco, quando presidia às sessões
e às eleições, percebia dois mil réis. Pelo ofício e missa cantada, dez mil
réis. Os sacerdotes que assistissem ao ofício dos Mortos, percebiam quatro mil
réis, cada um. Só o coadjutor podia servir de diácono da missa e era
recompensado, não pela função que desempenhava, mas pelo canto do Evangelho.
Recebia dois mil réis.
O mesmo percebiam o subdiácono, que cantava a
Epístola, e os sacerdotes que cantassem as lições. O pregador era mais bem
aquinhoado. Recebia seis mil réis. O sacristão era gratificado com a apreciável
importância de seis mil réis por ano, e, nas festas das Almas, levando-se em
conta a função extraordinária de turiferário, ganhava a gratificação
excepcional de um mil réis. Dos onze capítulos, são estes os mais curiosos.
É de supor-se que o compromisso de 1836 tenha
guardado, em linhas gerais, tudo o que compunha o compromisso primitivo que se
perdeu.
Num livro velho da Irmandade, aberto e
rubricado, em abril 1797, por Antônio Felipe Soares Brederodes, acham-se
lançadas as certidões de missas rezadas pelos irmãos falecidos e também os
nomes de irmãos vivos, em ordem alfabética, de 1797 a 1836[2].
Encontram-se igualmente ali registrados os
irmãos mais antigos, foi esse registro o ponto de partida de uma descoberta.
Ele revelou, na verdade, que a Irmandade das
Almas é quase tão antiga, como a própria Cidade do Príncipe.
Uma preciosa anotação veio esclarecer tudo,
informar, inclusive, que a Irmandade das Almas já existia em 1769. É anterior à
do Rosário.
Às fls. 9v, o escrivão da Irmandade escreveu
isto:
O Capitão-Mór Cipriano Lopes Galvão entrou nesta Irmandade em 1769.
Pagou até 1810. Continua sua mulher que pagou até 1827.
O capitão-mor Cipriano Galvão é o fundador de
Currais Novos e, possivelmente, irmão fundador da Irmandade das Almas,
porquanto sua senhoria é o irmão da letra C mais antigo registrado nesse livro.
No ano de 1769, contava apenas dezesseis anos de idade, pois nascera em 1753. O
patriarca pertenceu à Irmandade por espaço de quarenta e um anos.
Os demais irmãos anotados se colocam na lista
de 1774 para diante. Um deles, de nome Caetano José Coelho, morador no
Cordeiro, teria merecido um título de aposentadoria. Entrou para a Irmandade em
1774, e nela perseverou 59 anos seguidos, até 1833, quando faleceu.
Nessas condições, pode-se afirmar com segurança
que o venerável sodalício tenha sido fundado na década de 1760. Já existia em
1769. O que não se pode dizer mais, nem escrever é que tenha nascido em 1791.
Aquela declaração do diploma de irmão póstumo perdeu sua razão. Deve ser
substituída.
Lá estão os termos de recibos das capelas de missas celebradas
pelos irmãos falecidos Antônio de Azevedo Maia (o primeiro), Caetano Dantas
Correia (o primeiro), Josefa de Araújo Pereira, Micaela Dantas Pereira, Tomaz
de Araújo Pereira (o segundo). Era suma honra pertencer à veneranda Irmandade
das Almas do Seridó. É toda uma gente ilustre que desfila no velho livro,
sangue generoso e fecundo que, na continuidade do tempo, corre ainda nos galhos
da árvore humana que continua a brotar e cobrir a terra comum.
[1] É possível que esse compromisso de 1836
tenha sido redigido pelo padre Guerra. Aliás, ainda sobrevive em Caicó uma
tradição, segundo a qual o ilustre vigário colado teria sido o fundador da
Irmandade das Almas. Essa tradição é de qualquer forma insustentável. A
Irmandade já funcionava em 1769 e o padre Guerra nasceria oito anos mais tarde.
[2] Esse livro velho é uma das preciosidades do
arquivo paroquial do Caicó. nele se anotavam os recibos de missas celebradas
pelos irmãos mortos e, ao mesmo tempo, a matrícula dos irmãos, em ordem
alfabética. Infelizmente, as anotações da letra A se perderam. Restam as da
letra B para frente. A parte referente aos recibos de missas data de 1797 a 1836,
todos assinados pelos respectivos curas de então e pelos tesoureiros da
Irmandade. A lista é longa e compreende mais de mil irmãos. É uma doçura
repassar a série imensa da fina flor do elemento social do Seridó antigo, ali
presente e anotada…
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